Tirzepatida pode ativar a gordura que queima energia? Entenda o novo estudo

A tirzepatida já é conhecida por ajudar no controle do apetite, aumentar a saciedade e promover perda significativa de peso. Agora, um novo estudo levanta uma possibilidade ainda mais interessante: a tirzepatida pode também modificar a forma como o organismo utiliza energia.

Pesquisadores apresentaram no congresso ENDO 2026 um ensaio clínico mostrando que o tratamento com tirzepatida aumentou a atividade da chamada gordura marrom, um tipo especial de tecido adiposo capaz de consumir energia para produzir calor.

O resultado ainda é preliminar, mas pode ajudar a compreender melhor por que a tirzepatida produz efeitos metabólicos tão importantes.


Nem toda gordura é igual

Quando pensamos em gordura corporal, normalmente imaginamos apenas um depósito de energia.

Mas existem diferentes tipos de tecido adiposo.

A gordura branca é a mais abundante no organismo e funciona principalmente como reserva energética. Quando existe excesso de energia disponível, parte dela é armazenada nesse tecido.

Já a gordura marrom funciona de maneira diferente.

Ela possui grande quantidade de mitocôndrias e consegue utilizar energia para produzir calor, processo conhecido como termogênese.

De uma maneira simples, podemos imaginar a gordura branca como um depósito e a gordura marrom como uma pequena “fornalha metabólica”.

Durante muitos anos acreditou-se que a gordura marrom existia praticamente apenas em bebês. Hoje sabemos que adultos também possuem esse tecido, principalmente em regiões como pescoço e parte superior do tórax.

Pessoas com obesidade, entretanto, costumam apresentar menor atividade da gordura marrom.


O que os pesquisadores descobriram

O estudo, chamado TABFAT, avaliou 34 mulheres na pré-menopausa com obesidade.

As participantes foram divididas aleatoriamente para receber tirzepatida ou placebo durante 24 semanas.

A idade mediana era de aproximadamente 39 anos e o IMC mediano estava próximo de 37 kg/m².

Para identificar a atividade da gordura marrom, os pesquisadores utilizaram exames sofisticados, incluindo PET/CT após exposição controlada ao frio e ressonância magnética.

Antes do tratamento, aproximadamente 41,2% das mulheres que receberiam tirzepatida apresentavam gordura marrom detectável.

Depois de 24 semanas de tratamento, esse número subiu para 64,7%.

No grupo que recebeu placebo não houve uma mudança semelhante.

Além disso, os pesquisadores observaram aumento da atividade metabólica e do volume da gordura marrom.


A tirzepatida também pode transformar gordura branca em gordura “bege”

Outro resultado chamou atenção.

Os pesquisadores encontraram sinais de que parte do tecido adiposo branco poderia estar adquirindo características semelhantes às da gordura marrom.

Esse tecido intermediário é chamado de gordura bege.

As células bege conseguem aumentar sua capacidade de produzir calor e gastar energia em determinadas situações.

Isso levanta uma hipótese interessante: além de atuar no cérebro reduzindo a fome e aumentando a saciedade, a tirzepatida pode também interferir diretamente no funcionamento do tecido adiposo.

Ainda é cedo para saber qual é a importância clínica desse mecanismo.


O emagrecimento não parece explicar tudo

As mulheres tratadas com tirzepatida perderam aproximadamente 13,5% do peso corporal durante as 24 semanas.

Naturalmente, os pesquisadores quiseram descobrir se a maior atividade da gordura marrom poderia ser simplesmente consequência do emagrecimento.

Curiosamente, as mudanças observadas na gordura marrom não apresentaram uma relação clara com a quantidade de peso perdido.

Isso sugere que a tirzepatida pode exercer algum efeito sobre o tecido adiposo que não depende exclusivamente da redução do peso.

Mas essa hipótese ainda precisa ser confirmada em estudos maiores.


Isso significa que a tirzepatida faz o corpo queimar muito mais calorias?

Ainda não.

Esse é provavelmente o ponto mais importante ao interpretar o estudo.

Apesar da maior atividade da gordura marrom, os pesquisadores não encontraram diferença estatisticamente significativa no gasto energético de repouso entre os grupos.

Portanto, não podemos afirmar que a tirzepatida faz uma pessoa gastar centenas de calorias extras por dia.

Também não sabemos quanto da perda de peso observada com o medicamento poderia ser explicada pela ativação da gordura marrom.

Até hoje, os principais mecanismos conhecidos da tirzepatida continuam relacionados à atuação nos receptores de GIP e GLP-1, promovendo maior saciedade, menor ingestão alimentar e melhora do metabolismo da glicose.


Por que esse estudo é importante?

O estudo amplia nossa compreensão sobre como medicamentos modernos para obesidade podem funcionar.

Durante muito tempo, o tratamento medicamentoso da obesidade foi visto principalmente como uma forma de reduzir a fome.

Hoje sabemos que o metabolismo é muito mais complexo.

A tirzepatida pode atuar simultaneamente sobre:

  • controle do apetite;
  • saciedade;
  • glicemia;
  • resistência à insulina;
  • metabolismo do tecido adiposo;
  • distribuição de gordura corporal;
  • e, possivelmente, atividade da gordura marrom.

Isso reforça a ideia de que a obesidade não é simplesmente consequência de “comer demais”.

Ela envolve alterações complexas no cérebro, nos hormônios, no tecido adiposo e na forma como o organismo administra energia.


O estudo ainda tem limitações importantes

Apesar dos resultados interessantes, é necessário cautela.

O ensaio envolveu apenas 34 mulheres.

Todas estavam na pré-menopausa.

Portanto, ainda não sabemos se os mesmos resultados aconteceriam em homens, idosos, mulheres após a menopausa ou pessoas com diabetes.

Além disso, os resultados foram apresentados no congresso da Endocrine Society e ainda precisam ser confirmados por uma publicação científica completa revisada por pares.

Também não foi demonstrado que aumentar a gordura marrom seja responsável diretamente pela perda de peso causada pela tirzepatida.


O que podemos concluir até agora?

O estudo TABFAT encontrou evidências de que a tirzepatida pode aumentar a atividade da gordura marrom em mulheres com obesidade, além de apresentar sinais de transformação de parte da gordura branca em tecido metabolicamente mais ativo.

É uma descoberta interessante porque sugere que o medicamento pode atuar não apenas reduzindo a fome, mas também modificando o próprio funcionamento do tecido adiposo.

Ainda são necessários estudos maiores para entender quanto esse mecanismo contribui para o emagrecimento e para a melhora metabólica.

A mensagem mais importante é que o tratamento moderno da obesidade está revelando algo que a ciência já vem mostrando há anos:

o tecido adiposo não é apenas um depósito de gordura. Ele é um órgão metabolicamente ativo e participa diretamente do controle energético do organismo.

Referência científica

Herman R. e colaboradores. Tirzepatide Stimulates Brown Adipose Tissue Activity Independent of Weight Loss in Women with Obesity: TABFAT Trial. Apresentado no ENDO 2026, congresso anual da Endocrine Society, Chicago, 15 de junho de 2026.